
A bicampeã olímpica Kayla Harrison participou recentemente do podcast de Jorge Masvidal e abriu o jogo sobre o judô moderno, as mudanças de regras e os bastidores políticos que, segundo ela, transformaram o esporte ao longo dos anos.
Um dos pontos que mais incomodam Harrison é a proibição das pegadas nas pernas algo que, na visão dela, vai contra a própria essência do judô.
“Você não pode pegar nas pernas, mesmo sendo literalmente um golpe do judô. Existe um livro do fundador do judô com 67 projeções principais, e o double leg é uma delas. E eles simplesmente baniram. Como você vai banir um golpe original? Não faz sentido. É político”, pontuou Kayla.
Mudanças de regra e impacto no estilo de luta
Segundo Harrison, essas mudanças também afetaram diretamente o estilo das lutas, especialmente em países tradicionais como o Japão.
“Provavelmente baniram por isso. Hoje o Japão é muito tradicional e, na minha visão, até meio entediante. Você praticamente não pode mais disputar pegada. Tiraram muita coisa do jogo”, disse a campeã olímpica.
Ela também destacou o impacto dessas alterações em outras potências do judô, citando o caso de Cuba.
“Quando tiraram as pegadas nas pernas, isso realmente prejudicou Cuba. Mas por muito tempo, principalmente no judô feminino, elas eram assustadoras”, comenta a faixa-preta.

Política do judô e influência no MMA
Harrison foi além e conectou essa influência política do judô até mesmo à demora na legalização do MMA na França.
“É por isso que o MMA ficou proibido na França por tanto tempo”, disse. “O pessoal do judô não queria o ‘riffraff’ do MMA e tinha influência com os políticos.”
Baixa remuneração no judô de alto nível
Apesar de ser uma das atletas mais condecoradas da história do esporte, Harrison revelou que as oportunidades financeiras no judô eram bastante limitadas.
Após conquistar seu segundo ouro olímpico, a Federação Internacional de Judô chegou a fazer uma proposta de trabalho, que ela considerou decepcionante.
“Eles queriam que eu trabalhasse com eles, mas ofereceram tipo 25 mil dólares por ano”, contou.
Masvidal reagiu surpreso com o valor, e Harrison reconheceu o conflito entre paixão e retorno financeiro.
“Eu não fiz pelo dinheiro… mas também fiz.” Porém, Masvidal apoiou a atleta:
“Você deveria ser bem paga. Você trouxe essas medalhas para os Estados Unidos.”
Treinos no Japão e evolução ao topo
Ela também relembrou os duros camps de treino no Japão, fundamentais para sua evolução.
“Todo ano a gente ia pro camp nacional no Japão. Estamos falando de 500 meninas no tatame. Oito atletas por categoria, só gente absurda. As melhores do mundo. Nos EUA, às vezes tem 15 pessoas no tatame somando todas as categorias, fazendo uns 10 rounds”, disse, ao completar: “No Japão, eram 30 rounds, duas vezes por dia.”
Depois de anos sendo dominada nesses treinos, Harrison finalmente atingiu um nível onde passou a ser evitada, um momento que ela nunca esqueceu.
“Em 2016, eu já era campeã olímpica e você sente que está evoluindo”, contou. “Nunca vou esquecer isso. Tinham 500 meninas, e eu estava no meio do tatame com a mão levantada porque ninguém queria lutar comigo. Eu dominei o Japão. Os técnicos gritavam: ‘Vocês têm que lutar com ela’. Mas ninguém queria. Só que levou uma década. Foram dez anos apanhando muito.”
