Royce x Wallid: os bastidores da luta que levou 7 mil pessoas à arena de Copacabana
Marcelo Alonso relembra à VF Comunica a noite de dezembro de 1998, a campanha pela paz que colocou o Jiu-Jitsu na programação e o gesto de Carlson Gracie depois da finalização

Em 17 de dezembro de 1998, Royce Gracie, o homem que tinha apresentado o Jiu-Jitsu ao mundo no UFC, entrou em uma arena montada em Copacabana para enfrentar Wallid Ismail, aluno de Carlson Gracie. A luta durou menos de cinco minutos. Wallid venceu com um estrangulamento do relógio aos 4min53s e virou o assunto do mundo da luta no dia seguinte.
O jornalista e fotógrafo Marcelo Alonso estava lá, pela Tatame, e contou a Vitor Freitas, na VF Comunica, o que as imagens daquela noite não mostram.
O secretário que comprou a briga
Alonso faz questão de dar o crédito do evento a Zé Moraes, então secretário de esporte, que ele descreve como alguém do Jiu-Jitsu que não esqueceu a origem quando chegou ao poder. “É difícil mensurar a importância que esse cara teve para o Jiu-Jitsu. Comprou todas as brigas”, disse.
O contexto era o pior possível. O noticiário do Rio de Janeiro associava a modalidade às brigas de rua dos chamados pitboys. “Naquele momento só se falava em pitboy. Era uma arte maligna”, lembrou o jornalista. A arena receberia boxe e outras modalidades, e o secretário bancou a inclusão do Jiu-Jitsu com uma condição: os lutadores entrariam com a camisa de uma campanha pela paz.
É dali que vem uma foto conhecida de Royce e Wallid, lado a lado, de braço levantado, antes da luta. Para Alonso, a imagem engana. “Não tem nada a ver com o momento, nem com o Wallid que a gente conhece”, afirmou.
A única noite com 7 mil pessoas
A aposta deu certo. “O Royce já estava em um patamar em que até a grande mídia sabia quem ele era”, disse Alonso. “Botaram boxe, botaram tudo. O único evento que deu 7 mil pessoas foi o Jiu-Jitsu.”
A noite também teve uma luta entre atores de televisão, entre eles Alexandre Frota, que foi vaiada por parte do público. O torcedor Sadã, conhecido por puxar os cantos da equipe de Carlson, pegou o microfone e pediu respeito. Segundo Alonso, o argumento foi que pouca gente defendia o Jiu-Jitsu em público naquele momento e os dois estavam tendo coragem de fazer isso. A vaia virou aplauso.
Sem internet, só na revista do mês seguinte
O resultado correu de um jeito que hoje parece impossível. “Ainda não tinha internet. Você só ia saber na revista do mês seguinte”, lembrou Alonso, ou então por telefone fixo, para quem tinha um amigo no ginásio.
A Tatame deu a capa a Wallid com o título “A hora de Wallid”, em um retrato feito no estúdio do jornalista. Por dentro, a reportagem abria com a frase do vencedor: “Agora só falta o Rickson”. Essa luta nunca aconteceu.
“Para mim é tudo família”
A cena que Alonso mais gosta de lembrar veio logo depois da finalização. Enquanto os companheiros de Wallid comemoravam, Carlson atravessou o tatame na direção contrária. “A primeira coisa que ele faz é ir com o Royce”, contou. O gesto das mãos, segundo o jornalista, dizia que ele não queria aquilo.
Na primeira entrevista da noite, o mestre repetiu a ideia. “Para mim é tudo família. O Wallid é meu filho, e aqui é todo mundo da família Gracie, todo mundo faz a mesma arte”, disse Carlson, nas palavras de Alonso.
O jornalista usa o episódio para rebater quem tira de contexto a rivalidade entre Carlson e o tio, Hélio Gracie. As provocações existiam, mas ele não vê nelas uma divisão real. “Era tudo o mesmo Jiu-Jitsu”, resumiu.
Vídeo completo no YouTube
A entrevista completa com Marcelo Alonso está no canal da VF Comunica no YouTube.
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