Paulo Ledesma, o campeão que já formou 100 faixas-pretas
Líder da Atos Bauru já passa de 100 faixas-pretas formados, trabalha com Kaynan Duarte desde 2016 e hospedou os irmãos Mendes antes da fama

Em 2007, Paulo Ledesma embarcou para o Pan-Americano nos Estados Unidos e dividiu o quarto de hotel com dois jovens de Rio Claro que precisavam economizar: Guilherme e Rafael Mendes. Em entrevista à VF Comunica, o líder da Atos Bauru contou como aquela viagem ajudou a mudar o rumo da sua carreira.
“Conheci os irmãos Mendes durante o Pan-Americano em 2007. Naquela ocasião, eles viajaram para os Estados Unidos no mesmo voo que eu e me pediram para ficar no meu quarto de hotel. Como eu estava viajando com a federação, acabei hospedando os dois de graça!”, lembrou.
“Naquela época, a gente precisava se virar de várias maneiras para economizar com hospedagem”, completou.
Os três treinaram juntos em uma academia de Long Beach, na Califórnia, e Ledesma guardou a impressão daquele encontro. “Na época, acredito que ainda eram faixas-roxas ou marrons, não me lembro exatamente, mas já eram extremamente duros no Jiu-Jitsu.”
De uma casinha ao título mundial
Quando conheceu os irmãos, Ledesma já tinha uma trajetória própria. Seus primeiros passos foram com Vanderci Garcia, em uma pequena casa perto de onde morava. Mais tarde, Júnior Carvalho o direcionou para as competições.
Em 2004, ele foi campeão mundial da IBJJF na faixa-azul. No mesmo ano, começou a dar aulas em Piratininga, no interior de São Paulo, já como faixa-roxa.
“Foi o início da minha trajetória como professor. Desde cedo, entendi que o Jiu-Jitsu vai muito além das competições: é uma ferramenta de formação humana, disciplina e transformação de vidas”, disse.
O encontro com Ramon Lemos
Ledesma recebeu a faixa-preta em 2007, com Libéri, da Gracie Barra. Pouco depois, sem lugar para treinar, foi conhecer a academia dos irmãos Mendes em Rio Claro. Foi lá que encontrou Ramon Lemos, cofundador da Atos.
“O Ramon era sinistro no Jiu-Jitsu! Tinha um conhecimento técnico impressionante e uma capacidade de ensinar fora do comum”, contou.
Em 2008, Ramon assinou sua faixa-preta, e Ledesma entrou para a equipe. “Conhecendo de perto o trabalho dele, ficou muito claro para mim o quanto sua influência foi importante na formação dos irmãos Mendes e na construção do nível de excelência que eles alcançaram no esporte”, afirmou.
De 50 para 315 alunos em Bauru
Ledesma abriu a própria academia entre 2007 e 2008, com cerca de 50 alunos. Hoje são 315, divididos em turmas de iniciantes, feminino, competição e kids, que recebem crianças a partir de 2 anos.
Enquanto a academia crescia, ele seguiu competindo. Na faixa-preta, venceu o absoluto do Paulista adulto em 2013, o Internacional de Master em 2018, o Sul-Americano sem kimono em 2019 e o Sul-Americano em 2021. Em 2024, conquistou o absoluto do Brasileiro sem kimono e o Pan-Americano sem kimono.
“A competição me ensinou a lidar com a pressão, enfrentar dificuldades e manter o foco mesmo diante dos desafios. É isso que procuro transmitir aos meus alunos: a vida também é uma competição, e nem sempre vamos vencer”, disse.
Mais de 100 faixas-pretas formados

Segundo Ledesma, mais de 100 faixas-pretas já saíram de suas mãos. Um deles é Wilker Welington Pereira, que começou criança, foi campeão paulista e hoje é professor na cidade. Vários ex-alunos também abriram academias em Bauru e na região.
Entre os resultados recentes da equipe está o de seu filho, Davi Ledesma, campeão pan-americano, brasileiro e sul-americano em 2026 no juvenil. Isadora Muniz foi campeã sul-americana no mesmo ano, e Fabiely Ortega venceu o Brasileiro sem kimono na faixa-marrom. Ivanor Carminatti conquistou o Sul-Americano em 2024, 2025 e 2026, duas vezes na faixa-azul e uma na roxa.
Dez anos de trabalho com Kaynan Duarte
O nome de maior expressão nessa trajetória é Kaynan Duarte, campeão mundial e do ADCC. Natural de Pederneiras, cidade vizinha a Bauru, ele começou com Zé Cavalo e procurou Ledesma quando buscava treinos mais fortes.
Ledesma conta que Kaynan treina com ele desde a faixa-roxa e que o trabalho entre os dois vem de 2016 até hoje. A faixa-preta veio de André Galvão, como o próprio professor faz questão de registrar. Ledesma também acompanhou o atleta no BJJ Stars e no BJJ Bet.
A lição que passa aos alunos
Depois de mais de duas décadas como professor, com seminários em cidades da região e uma passagem pelo Porto, em Portugal, em 2018, Ledesma diz ter método próprio. Com as crianças, o foco está na base técnica, na disciplina e no respeito. Com os competidores, o trabalho é feito em cima de repetição e treino específico.
“Eu acredito que a disciplina e o respeito começam pelo exemplo do professor. Dentro da academia, somos um espelho para nossos alunos. Nossa postura, nossas atitudes e a maneira como tratamos as pessoas ensinam muito mais do que apenas nossas palavras”, afirmou.
É essa forma de trabalhar que ele pretende levar agora aos Estados Unidos. “Minha forma de ensinar é pelo exemplo. Quero formar não apenas bons atletas, mas pessoas disciplinadas, respeitosas e preparadas para os desafios da vida.”
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