
O primeiro ano na faixa-preta raramente é simples e Rafael Silveira sabe disso melhor do que ninguém. Tricampeão mundial nas faixas anteriores, cinco vezes campeão brasileiro e hoje top 3 do ranking mundial da IBJJF no peso médio, o atleta viveu em 2025 sua primeira temporada completa competindo na elite do Jiu-Jitsu profissional.
Foram 17 campeonatos disputados, confrontos diretos contra campeões mundiais consagrados e um processo claro de adaptação ao nível mais alto do esporte. Mais do que resultados imediatos, Rafael enxerga o ano como uma fase fundamental de construção técnica, mental e estratégica.
Em entrevista ao VF Comunica, ele analisa com maturidade o momento atual da carreira, fala sobre o peso da experiência na faixa-preta, comenta o crescimento do Jiu-Jitsu profissional e aponta seus objetivos para 2026, incluindo a busca pelo primeiro título mundial na preta e a entrada definitiva no cenário sem kimono.
Uma temporada de volume e aprendizado
Ao avaliar o ano, Rafael não se apoia apenas em medalhas ou pódios. O volume competitivo por si só já diz muito: 17 campeonatos em uma única temporada, enfrentando os principais nomes da divisão.
“A temporada foi muito produtiva. Lutei 17 campeonatos. Não obtive os melhores resultados, mas sei que é uma construção constante. Foi minha primeira temporada completa como faixa-preta. Esse é meu primeiro ano na elite do esporte e pude aprender muito com isso.”
A fala reflete uma leitura realista do processo. Diferente das faixas anteriores, onde Rafael dominou rankings e fechou ciclos invictos, a faixa-preta exige adaptação a um nível onde quase todos os adversários são campeões, veteranos ou atletas consolidados há mais de uma década.
Os verdadeiros pontos altos: testar-se contra lendas
Quando questionado sobre os momentos mais marcantes da temporada, Rafael foge da lógica simples de vitórias e derrotas. Para ele, o valor está no nível dos desafios enfrentados.
“Ganhar ou perder é muito raso, momentâneo. Definitivamente poder lutar com campeões mundiais e tantas lendas do esporte, me testar contra eles foi um presente.”
Na prática, isso significa dividir o tatame com atletas que carregam 10, 15 anos de elite competitiva, algo completamente diferente das categorias de base. É nesse cenário que Rafael entende estar construindo sua verdadeira versão como faixa-preta.
A diferença da faixa-preta: experiência pesa mais que talento
Rafael destaca que o principal choque ao chegar na faixa-preta não foi técnico, mas experiencial. O talento existe em abundância, mas a leitura de jogo, o controle emocional e a gestão de luta fazem a diferença.
“A faixa-preta te ensina muitas coisas, mas o que eu senti principalmente foi a experiência. Isso sim faz a diferença.”
Ele complementa:“Você pode lutar contra todos nas faixas de base, mas quando chega na elite do esporte, é diferente. Você luta contra caras que são lendas, 10 a 15 anos na elite.”
Esse entendimento ajuda a explicar a postura paciente de Rafael em seu primeiro ciclo como preto: menos ansiedade por resultados imediatos e mais foco em absorver, ajustar e evoluir.
Ranking, divisão e possíveis superlutas
Mesmo em fase de construção, Rafael já ocupa um espaço relevante no cenário mundial. Atualmente, ele está rankeado em 3º lugar no peso médio da IBJJF, uma das divisões mais competitivas do Jiu-Jitsu moderno.
Naturalmente, isso abre espaço para grandes confrontos e ele não foge do tema.
“Acredito que qualquer um da divisão peso médio ou leve. Gostaria muito de uma luta com o Matheus Gabriel, com todo o respeito pelo atual campeão mundial. Atualmente sou terceiro no ranking, então qualquer um dos top 10 melhores atletas do mundo seria uma boa.”
Além da própria trajetória, Rafael também analisa o momento do esporte como um todo — e vê um cenário extremamente positivo.
“É lindo de se ver. Tantas mídias e eventos de mainstream se envolvendo com o Jiu-Jitsu é demais.“Acho que a evolução dos últimos cinco anos foi maior do que a dos últimos vinte.”
Eventos como ONE Championship, UFC (via grappling), BJJ Stars, WNO, The Crown, entre outros, são citados como pilares que estão profissionalizando o esporte e criando melhores condições de vida para os atletas — além de ampliar o alcance do Jiu-Jitsu para novos públicos.
2026 no horizonte: Mundial, impacto e sem kimono
O olhar de Rafael para 2026 é ambicioso, mas coerente com tudo o que foi construído até aqui.
“Conquistar meu primeiro título mundial e com certeza impactar a vida das pessoas com isso.”
Rafael ainda reforça a mensagem que carrega desde a base:
“Mostrar que nada é impossível, só basta trabalhar duro, ter fé e nunca desistir.”
Além disso, Rafael confirma que o no-gi está definitivamente nos planos:
“Lutar sem kimono é algo que está nos meus planos também. Venho treinando sem kimono e aprendendo muito. Quero mostrar minhas novas habilidades para o público.”
