Kade Ruotolo x Mica Galvão: os contratos exclusivos travam a revanche?
Com os principais nomes divididos entre ONE, UFC BJJ, ADCC e Who’s Number One, as lutas mais pedidas do Jiu-Jitsu passam a depender de acordo entre as organizações

Kade Ruotolo e Mica Galvão se enfrentaram no ADCC 2022, em Las Vegas, e o americano levou a melhor. Quatro anos depois, a revanche segue entre as lutas mais pedidas do esporte, mas a conversa em torno dela mudou de lugar. Antes de discutir quem venceria, o fã precisa descobrir onde e como os dois poderiam se encontrar.
Esse é o ponto de partida da análise que Vitor Freitas publicou no canal da VF Comunica no YouTube sobre os contratos exclusivos, tema que já mexe com o calendário das maiores organizações de Jiu-Jitsu sem kimono do mundo.
O dinheiro chegou, e a exclusividade veio junto
Durante anos, o atleta de Jiu-Jitsu competiu por medalha, exposição e bolsas de poucas centenas de dólares. Esse cenário mudou. ADCC, UFC BJJ, ONE Championship e Who’s Number One oferecem contratos e premiações que permitem a muitos faixas-pretas viver do esporte. Com o dinheiro chegou também a cláusula de exclusividade: cada organização segura os seus campeões, e o confronto entre estrelas de casas diferentes deixa de depender apenas da vontade dos atletas.
Para explicar o tamanho da questão, Vitor compara o momento a uma Copa do Mundo dividida, em que o Brasil disputa um torneio, a Argentina outro, a França tem contrato com uma terceira organização e nenhuma seleção pode enfrentar as outras. No fim, três equipes levantam três troféus diferentes, e todas se apresentam como a melhor do mundo.
Três lutas que esbarram em contratos
O caso de Kade e Mica é o mais simbólico. Desde o ADCC 2022, o brasileiro conquistou praticamente tudo o que havia para conquistar de kimono, enquanto Kade virou estrela do ONE Championship, onde também começou a carreira no MMA. A revanche talvez fosse ainda maior hoje do que o primeiro encontro.
O mesmo raciocínio vale para Andrew Tackett, um dos nomes mais empolgantes da nova geração americana. Duelos contra Kade ou Tye Ruotolo são exatamente o tipo de luta que ajuda a definir uma época, mas, conforme os grandes atletas se espalham por organizações diferentes, esses confrontos passam a depender de empresas, negociações e exceções contratuais.
O exemplo mais recente envolve Victor Hugo. Campeão do ADCC 2026 com quatro vitórias, várias delas por finalização, ele foi anunciado pelo ONE pouco depois. Entre os pesos-pesados, o duelo que vem naturalmente à cabeça é contra Nicholas Meregali, dois gigantes com estilos completamente diferentes. Antes de imaginar o vencedor, o público precisa saber se a luta pode acontecer, onde seria marcada e quem teria de liberar quem.
Os atletas estão certos em assinar
Na análise, Vitor defende os atletas que fecharam contratos. Depois de décadas competindo por pouco dinheiro, eles fazem bem em buscar as melhores propostas possíveis. O ONE quer manter os seus grandes nomes, o UFC BJJ quer construir o próprio elenco e as outras organizações protegem os seus investimentos. A dúvida que fica é como o esporte vai funcionar quando todo mundo estiver ganhando dinheiro de verdade.
O cenário que se desenha é o de quatro ou cinco organizações, cada uma com o seu campeão, todas apresentando um dos melhores lutadores do planeta. Ser chamado de melhor do mundo e ter a chance de vencer os outros que carregam o mesmo rótulo são coisas bem diferentes.
A lição do boxe
O boxe conviveu por décadas com promotores, emissoras, cinturões e contratos diferentes. O fã perguntava quando dois campeões iam se enfrentar e ouvia que seria no ano seguinte, depois no outro, até que os dois envelheciam ou a luta simplesmente nunca acontecia. Para Vitor, o Jiu-Jitsu precisa tomar cuidado para não copiar justamente uma das coisas mais frustrantes daquele esporte.
Uma Liga dos Campeões do Jiu-Jitsu
A proposta apresentada no vídeo é criar uma forma de as organizações conversarem. Uma vez por ano, os contratos ganhariam uma exceção: o ONE mandaria os seus campeões, o UFC BJJ faria o mesmo, e ADCC e Who’s Number One colocariam os melhores atletas dos seus elencos, sem importar o logo na camisa nem onde cada um luta no resto da temporada.
“Durante uma noite derrubam os muros. Campeão contra campeão, o melhor contra o melhor”, resume Vitor.
A ironia, segundo ele, é que por décadas o maior problema do Jiu-Jitsu profissional foi a falta de dinheiro. Agora, o próximo obstáculo pode ser justamente o dinheiro separando os melhores.
Assista à análise completa
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