Carlson Gracie x BTT, a ruptura contada por quem cobriu o dia: “Houve intransigências de ambas as partes”
Marcelo Alonso, que acompanhou a briga de perto, conta à VF Comunica a história da camisa da Santa Ceia e recusa a versão simples de traição

A separação entre Carlson Gracie e os alunos que fundaram a Brazilian Top Team, em 2000, é um dos capítulos mais doloridos da história do Jiu-Jitsu e do MMA no Brasil. De um lado ficou o mestre que tinha formado uma geração de campeões. Do outro, nomes como Murilo Bustamante, Zé Mario Sperry e Ricardo Libório. O jornalista e fotógrafo Marcelo Alonso estava no meio, amigo dos dois lados.
Em entrevista a Vitor Freitas, na VF Comunica, Alonso contou o que viu e recusou a leitura de que tudo se resume a traição. “Essa história é muito complexa. Eu estava lá, eu vivi, eu fiz a matéria do dia da ruptura”, disse. “Houve intransigências de ambas as partes e também tinha gente interessada que houvesse a ruptura.”
A camisa da Santa Ceia
Carlson chamava de “traíras” os alunos com quem tinha rompido e, segundo Alonso, cobrava que o jornalista tomasse partido. “Ele ficava puto porque eu não me posicionava a favor dele nessa situação. Eu queria que os caras fizessem as pazes”, lembrou.
A cobrança chegava por telefone, de Chicago, onde o mestre morava. Carlson pedia fotos de cada um dos ex-alunos para estampar uma camisa. Quando Alonso perguntou para que serviriam, ouviu a explicação: “Eu sou o Jesus Cristo, Jesus Cristo no meio, e os traíras em volta roubando o pão da minha mão”.
A camisa foi feita. Alonso se recusou a usar e guarda a peça até hoje. “Eu tenho até hoje. Ele me deu”, contou.
“O Vitor foi o que mais doeu”
Entre os rompimentos de Carlson, Alonso aponta o de Vitor Belfort como o mais sentido. “O Vitor acho que foi o que mais doeu nele, porque o Vitor era como um filho para ele”, disse. Foi Belfort quem convenceu o mestre a se mudar para Los Angeles e recomeçar. “Imagina tu fazer isso com 70 anos”, comentou o jornalista.
Carinho dos dois lados
Alonso seguiu próximo dos fundadores da BTT depois da briga e diz que nunca ouviu deles uma palavra de desprezo pelo antigo professor. “Não tem um almoço em que você saia e eles não falem do Carlson com carinho, rindo para caramba. Eles sentiram muito. E o Carlson mais ainda, que foi morar em Chicago sozinho”, afirmou.
Para ele, o desentendimento sobre a parte do mestre nas bolsas dos lutadores escondia uma relação que ninguém queria romper. “O Carlson gastava tudo que tinha”, disse, ao explicar que o dinheiro não era o centro da questão. O jornalista conta que, ouvindo os dois lados, via a separação se aproximar. “Esses caras amam o mestre”, disse.
Carlson Gracie morreu em 2006, em Chicago. “Quando o Carlson morreu, ficou todo mundo mal para caramba”, lembrou Alonso.
O tamanho do que Carlson construiu
A dimensão da ruptura se mede pelo que existia antes dela. Alonso lembra que, desde a criação da federação, nos anos 1970, até a era dos Mundiais, a academia de Carlson ganhava quase todas as divisões das competições de Jiu-Jitsu, e que os mesmos alunos levaram essa hegemonia para o vale-tudo. A BTT, fundada por eles, se tornaria uma das maiores equipes de MMA do mundo.
Vídeo completo no YouTube
A entrevista completa com Marcelo Alonso está no canal da VF Comunica no YouTube.
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