Como Carlson Gracie formava campeões: o “galo vermelho” e a porta aberta para quem não podia pagar
Marcelo Alonso, dono de um dos maiores acervos sobre o mestre, explica à VF Comunica como Carlson escolhia seus lutadores e por que proibia comemoração antes da hora

Carlson Gracie foi o maior lutador de sua geração e, depois de parar, montou a equipe que dominou as competições de Jiu-Jitsu no Rio de Janeiro e levou essa força para o vale-tudo. Poucos acompanharam esse trabalho tão de perto quanto o jornalista e fotógrafo Marcelo Alonso, que diz ter o maior acervo sobre o mestre. Em entrevista a Vitor Freitas, na VF Comunica, ele explicou como Carlson escolhia e moldava seus alunos.
Quem pagava não tinha prioridade
A primeira diferença, segundo Alonso, apareceu quando Carlson deixou a academia da família e abriu a própria escola, em Copacabana. Ali, a mensalidade deixou de definir quem recebia atenção. “O que o Carlson estava interessado era se você tinha potencial para ser um campeão”, disse.
O jornalista reproduz o raciocínio do mestre diante de dois alunos. Um pagava em dia e não tinha futuro na competição. O outro não pagava nada. “Aquele ali tem sangue no olho, hein? Galo vermelho”, dizia Carlson, na lembrança de Alonso. “Passava a dar mais atenção para o cara que era da comunidade, não pagava, do que para o cara que pagava.”
O exemplo que ele dá é o de Albertinho dos Santos, filho do homem que cuidava dos galos de Carlson. O mestre pediu ao funcionário que levasse o menino para treinar. “Fez o cara campeão do Jiu-Jitsu. Hoje vive do Jiu-Jitsu muito bem, obrigado, na Europa”, contou Alonso.
Galo vermelho, galo pintado, galo branco
A expressão vinha das rinhas e virou o método de avaliação de Carlson. O galo vermelho era o lutador que nascia pronto para a guerra. “Galo vermelho eram poucos”, disse Alonso, citando Carlão Barreto, Ricardo Arona e Murilo Bustamante como exemplos.
Havia também o galo pintado, o talento que não tinha a mesma fibra de origem, mas podia ser trabalhado. “Se o cara fosse um talento, ele conseguia transformar ainda em campeão, dar uma blindada na mente”, explicou. Com o galo branco, não havia o que fazer. “Como dizia o Carlson, não dá para você blindar a mente de um galo branco.”
“Vai comemorar antes do tempo?”
Para mostrar o que era essa blindagem, Alonso recorre a uma cena de 1997, no UFC 12, quando Vitor Belfort venceu a primeira luta do torneio dos pesados. No caminho de volta ao vestiário, alguém da equipe gritou que o título já era deles. Carlson se virou furioso. “Vai comemorar antes do tempo?”, cobrou. Belfort voltou e venceu a final.
Segundo o jornalista, os alunos sabiam que levariam bronca se festejassem cedo. A pergunta do mestre era sempre a mesma: por quê, achou que não ia ganhar? “Isso define o Carlson”, disse Alonso.
Ele cita outras duas provas da mesma mentalidade. Carlão Barreto venceu três lutas em uma noite com a costela quebrada, a última contra Kevin Randleman. E Murilo Bustamante enfrentou Tom Erikson, de 130 quilos, em uma luta que deveria ter limite de tempo e, no meio do combate, passou a não ter.
Lutador e formador
O que torna Carlson raro, na avaliação de Alonso, é ter sido grande nas duas funções. No futebol e no vôlei, lembra ele, os melhores técnicos quase nunca foram os melhores jogadores. “Ele consegue formar, ter o olho, isso não é fácil, e passar para as pessoas que ele percebe que têm potencial a mentalidade de campeão”, afirmou.
A separação entre o mestre e parte dessa geração é contada em Carlson Gracie x BTT: a ruptura contada por quem cobriu o dia.
Vídeo completo no YouTube
A entrevista completa com Marcelo Alonso está no canal da VF Comunica no YouTube.
Quem foi o maior formador de campeões da história do Jiu-Jitsu? Deixe sua opinião nos comentários.







