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segunda-feira, 26 de outubro de 2026 26 out 2026
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Entrevista exclusiva

VIDA for Her: Michele Freitas fala do apoio a jovens atletas

Criadora do projeto, ligado à Inspirit Jiu Jitsu Foundation, conta como um jantar beneficente virou ponte entre talentos brasileiros e oportunidades nos Estados Unidos

VIDA for Her: Michele Freitas fala do apoio a jovens atletas
Foto: Divulgação
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Michele Freitas, criadora do VIDA for Her, contou em entrevista à VF Comunica como o projeto, que reúne mulheres para apoiar jovens atletas brasileiras de Jiu-Jitsu, transformou um jantar beneficente em Redondo Beach, na Califórnia, em ajuda concreta para meninas que sonhavam disputar o Mundial da IBJJF.

Sócia de uma academia com mais de 500 alunos na Califórnia, Michele já falou ao site sobre como ela e o marido, Rodrigo Freitas, compraram a academia em que trabalhavam e sobre os dois mitos de quem sonha em viver de Jiu-Jitsu nos Estados Unidos. Agora, o assunto é o movimento que ela criou dentro da Inspirit Jiu Jitsu Foundation, organização sem fins lucrativos sediada em Redondo Beach.

Jantar em Redondo Beach escolheu três atletas

O primeiro VIDA for Her Benefit Dinner aconteceu em 9 de maio. Na noite, 14 atletas tiveram suas histórias apresentadas em vídeos gravados por elas mesmas, e os convidados participaram da escolha das três beneficiadas. O dinheiro arrecadado cobriu inscrição, viagem e equipamento para a disputa do Mundial.

O nome do projeto carrega os quatro pilares que orientam suas ações: voz, inspiração, coragem e autonomia. No bate-bola abaixo, Michele explica como a ideia nasceu, quais obstáculos as meninas enfrentam para construir uma carreira internacional, o que a trajetória de Beatriz Rodrigues representa e para onde o movimento quer crescer.

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Bate-bola com Michele Freitas

VF Comunica: Como surgiu o VIDA e em que momento você percebeu que a união entre mulheres poderia virar oportunidade real para jovens atletas de Jiu-Jitsu?

Michele Freitas: O VIDA.forher nasceu de uma reflexão muito pessoal sobre a força que existe quando mulheres se unem com um propósito verdadeiro.

Sempre acreditei que, quando uma mulher conquista seu espaço, ela também tem a oportunidade de abrir caminhos para outras. Mas percebi que muitas vezes estamos cercadas de mulheres incríveis, com histórias extraordinárias, e não criamos oportunidades suficientes para nos conectarmos, compartilharmos experiências e crescermos juntas. Percebi, ao me rodear de mulheres incríveis, o quanto isso faz diferença na nossa própria vida e nas nossas escolhas. A gente passa a se perceber diferente, começamos a nos amar de verdade!

Foi daí que surgiu a ideia de criar algo que fosse muito além de encontros sociais. Eu queria construir um movimento no qual cada mulher pudesse encontrar inspiração, reconhecimento, apoio e, principalmente, um espaço onde sua voz tivesse valor.

Costumo dizer que não basta ter um lugar à mesa. Precisamos construir mesas onde outras mulheres também possam se sentar. Sentar na mesa “certa” é essencial!

O Jiu-Jitsu entrou naturalmente nessa missão porque faz parte da minha vida e porque conheço de perto os desafios enfrentados por jovens atletas brasileiras extremamente talentosas.

Quando pensamos no nosso primeiro jantar beneficente, enxerguei a oportunidade de transformar essa conexão feminina em algo concreto: reunir mulheres que já conquistaram seus espaços para ajudar meninas que estão apenas começando a construir os seus.

Foi nesse momento que o VIDA ganhou uma dimensão ainda maior. Deixamos de falar apenas sobre empoderamento e começamos a criar oportunidades reais.

Porque acredito que o verdadeiro poder feminino não está somente no que conquistamos individualmente, mas no que somos capazes de transformar coletivamente.

Evento do VIDA for Her, na Califórnia
Evento do VIDA for Her | Foto: Divulgação

VF Comunica: Voz, inspiração, coragem e autonomia. Como esses pilares saem do papel?

Michele Freitas: Esses quatro pilares representam a essência do VIDA.forher. Não queremos que sejam apenas palavras bonitas associadas ao nosso projeto. Queremos que sejam valores vividos e compartilhados.

Voz significa criar espaços onde mulheres possam contar suas histórias, expressar suas opiniões e ser ouvidas. Muitas vezes, uma mulher só precisa perceber que sua história importa para encontrar coragem de mudar sua realidade.

Inspiração nasce das conexões. Quando reunimos mulheres de diferentes trajetórias, profissões e experiências, mostramos que não existe apenas um caminho para o sucesso. A história de uma mulher pode ser exatamente o incentivo que outra precisa para continuar.

Coragem é sobre enfrentar medos, romper limitações e acreditar que somos capazes de alcançar lugares que antes pareciam distantes. Isso se conecta diretamente às jovens atletas que apoiamos. Muitas delas já demonstram uma coragem extraordinária ao escolher o esporte como caminho, mesmo diante de tantas dificuldades.

Autonomia, para mim, é um dos pilares mais importantes. Não queremos apenas oferecer ajuda momentânea. Queremos contribuir para que essas mulheres e meninas desenvolvam confiança, independência e ferramentas para construir suas próprias oportunidades.

Nos nossos encontros, projetos sociais e iniciativas esportivas, buscamos transformar esses quatro valores em ações.

Porque o objetivo do VIDA não é criar dependência, mas despertar potencial, fortalecer mulheres e construir caminhos para que elas possam caminhar com suas próprias pernas.

VF Comunica: No primeiro jantar, três brasileiras foram escolhidas entre 14 atletas. Como foi a seleção e o que mais chamou sua atenção nas histórias?

Michele Freitas: O nosso primeiro jantar beneficente foi um momento muito especial porque conseguimos reunir mulheres em torno de um propósito que ia muito além daquele encontro.

Nosso objetivo era arrecadar recursos para proporcionar a jovens atletas brasileiras a oportunidade de competir internacionalmente, em um dos cenários mais importantes do Jiu-Jitsu.

O processo de seleção foi especialmente emocionante porque apresentamos as histórias das candidatas aos convidados através de vídeos criados pelas mesmas, permitindo que conhecessem um pouco das trajetórias, dos sonhos e das dificuldades enfrentadas por cada uma. A escolha das beneficiadas contou com a participação das pessoas presentes no evento.

O que mais me marcou foi perceber que estávamos diante de meninas com sonhos enormes, mas com oportunidades muito diferentes.

No Brasil, temos talentos extraordinários. Meninas que treinam intensamente, fazem sacrifícios, enfrentam dificuldades financeiras e continuam acreditando que podem chegar ao topo do esporte.

Muitas vezes, o que separa essas atletas de uma competição internacional não é a falta de talento, disciplina ou dedicação. É simplesmente a falta de recursos e oportunidades.

E isso me toca profundamente.

Como mulher, mãe e alguém que vive o Jiu-Jitsu, acredito que nenhuma menina deveria precisar abandonar um sonho apenas porque não teve acesso às mesmas oportunidades que outras atletas.

A seleção de três meninas representou muito mais do que escolher beneficiadas. Representou a possibilidade de mudar perspectivas e mostrar que existem pessoas dispostas a acreditar nelas.

E, embora não pudéssemos ajudar todas naquele primeiro momento, cada história reforçou nossa responsabilidade de continuar crescendo.

VF Comunica: Além do dinheiro, o que mais pesa contra as jovens brasileiras que sonham com uma carreira internacional no Jiu-Jitsu?

Michele Freitas: A questão financeira é uma das barreiras mais visíveis, mas está longe de ser a única.

Construir uma carreira internacional exige muito mais do que talento dentro do tatame.

Essas meninas precisam de acesso a treinamentos de alto nível, competições internacionais, orientação profissional, conexões, visibilidade e pessoas que possam ajudá-las a compreender como transformar o esporte em uma carreira sustentável.

Existe também uma questão emocional muito importante.

Muitas jovens atletas crescem sem referências suficientes de mulheres que conseguiram transformar seus sonhos esportivos em uma carreira internacional.

Quando uma menina não consegue visualizar alguém como ela ocupando determinado espaço, pode começar a acreditar que aquele lugar não foi feito para ela.

Por isso, acredito tanto na importância da representatividade e da mentoria.

Outro desafio é a falta de estrutura para que essas atletas possam se dedicar ao esporte sem comprometer seus estudos, sua saúde e seu desenvolvimento pessoal.

Não podemos olhar apenas para a atleta que queremos formar. Precisamos olhar para a mulher que ela está se tornando.

O VIDA.forher busca justamente ampliar essa visão.

Queremos ajudar essas meninas a compreender que o Jiu-Jitsu pode abrir portas não apenas para medalhas e títulos, mas também para educação, desenvolvimento pessoal, conexões profissionais e independência.

Porque uma carreira esportiva tem diferentes fases, mas as oportunidades construídas ao longo dela podem transformar uma vida inteira.

VF Comunica: Beatriz Rodrigues recebeu apoio do projeto para treinar e competir nos Estados Unidos. O que a trajetória dela representa e que resultados o VIDA já colheu?

Michele Freitas: Quando olhamos para uma jovem atleta, não estamos enxergando apenas seus resultados esportivos. Estamos olhando para uma menina que tem sonhos, que faz escolhas difíceis, que enfrenta desafios e que acredita que seu esforço pode levá-la mais longe.

Poder contribuir para que uma atleta brasileira tenha acesso a experiências internacionais é algo extremamente significativo.

Treinar em outro país, conhecer diferentes metodologias, conviver com atletas de alto nível e vivenciar competições internacionais são experiências que podem transformar não apenas o desempenho esportivo, mas também a mentalidade e a confiança de uma jovem.

E os resultados do VIDA precisam ser avaliados de uma maneira mais ampla.

Nosso primeiro grande resultado foi conseguir transformar uma ideia em uma mobilização real. Reunimos mulheres, apresentamos histórias de jovens atletas e criamos uma iniciativa capaz de conectar pessoas que desejavam ajudar a pessoas que precisavam de oportunidades.

A partir disso, começamos a construir uma ponte entre o talento brasileiro e as oportunidades internacionais.

É claro que medalhas e conquistas esportivas são importantes, mas existe algo que considero ainda mais valioso: a transformação que acontece quando uma menina percebe que existem pessoas acreditando no potencial dela.

Às vezes, tudo o que uma jovem precisa para mudar sua trajetória é uma oportunidade e alguém que acredite nela antes mesmo de ela conquistar seu próximo título.

É esse tipo de impacto que queremos multiplicar.

Atletas apoiadas pelo VIDA for Her nas escadas da Walter Pyramid, em Long Beach
Atletas do VIDA for Her na Walter Pyramid, em Long Beach | Foto: Divulgação

VF Comunica: Quais são os próximos passos? Há planos de ampliar o número de atletas, criar mentorias e atrair empresas para o Jiu-Jitsu feminino?

Michele Freitas: O VIDA.forher nasceu com uma visão que vai muito além de um evento ou de uma ação beneficente.

Nossa intenção é construir um movimento sólido, capaz de gerar impacto contínuo na vida de mulheres.

Um dos nossos próximos focos é continuar criando oportunidades internacionais para atletas brasileiras. Estamos trabalhando em iniciativas que conectam jovens talentos a experiências de treinamento de alto nível nos Estados Unidos, incluindo oportunidades relacionadas à preparação para grandes campeonatos de Jiu-Jitsu No-Gi.

Também queremos desenvolver a parte educacional e de mentoria do projeto.

Acredito que aproximar jovens atletas de mulheres que já construíram suas trajetórias profissionais, dentro e fora do esporte, pode ser uma ferramenta extremamente poderosa.

Queremos que essas meninas tenham acesso não apenas a oportunidades esportivas, mas também a conhecimento sobre liderança, desenvolvimento pessoal, planejamento de carreira e independência financeira.

Outro ponto fundamental é a aproximação com empresas e marcas que compreendam o valor de investir no esporte feminino.

Não queremos que as empresas enxerguem essas iniciativas apenas como patrocínio esportivo, mas como investimento em desenvolvimento humano, representatividade e impacto social.

Existe um potencial enorme quando o setor privado, o esporte e a comunidade trabalham juntos.

Nosso objetivo é crescer de maneira responsável, ampliar gradualmente o número de atletas beneficiadas e construir parcerias que permitam transformar iniciativas pontuais em oportunidades duradouras.

Mas também é importante lembrar que o VIDA.forher não se limita ao Jiu-Jitsu.

O esporte é uma das ferramentas que utilizamos para gerar transformação, mas nosso propósito é muito maior: conectar mulheres, fortalecer sua autoestima, incentivar sua autonomia e criar uma rede de apoio verdadeira.

Eu acredito que o sucesso de uma mulher nunca deveria ser o ponto final de uma história. Ele pode ser o começo da história de muitas outras.

E é exatamente isso que queremos construir com o VIDA.forher.

E você, conhece alguma atleta que só precisa de uma oportunidade para chegar a um grande campeonato? Conte pra gente nos comentários.

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Vitor Freitas
Escrito por Vitor Freitas

Vitor Freitas é jornalista e cobre o Jiu-Jitsu há mais de 15 anos, com entrevistas, reportagens e presença nos principais eventos do Jiu-Jitsu ao redor do mundo. Em 2022, criou a VF Comunica.

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